Caminhos do Paralelo 15 S

O Traço Continental de Abya Yala: Inscrição Territorial, Cosmopolítica e Reconfiguração da Land Art na Escala Planetária


O trabalho que se estende do sul do Peru ao Centro-Oeste brasileiro, alcançando também o sul de Minas Gerais, pode ser compreendido como uma prática de land art que opera em uma escala inédita na história das intervenções territoriais. Ao contrário das obras paradigmáticas da land art estadunidense — como Spiral Jetty (Robert Smithson), Double Negative (Michael Heizer) ou Sun Tunnels (Nancy Holt) — que se inscrevem em paisagens desérticas e relativamente isoladas, esta intervenção se realiza sobre um território densamente habitado, culturalmente estratificado e cosmologicamente ativo: Abya Yala, denominação indígena que antecede e desafia a cartografia colonial da América Latina.




A obra não se limita à criação de uma linha ou de uma geometria sobre o mapa. Ela se constitui como um ato de inscrição territorial, no qual o desenho não representa o continente, mas o interroga. O traço continental opera como dispositivo epistemológico, articulando relações entre formações geológicas, biomas, cosmologias ameríndias, fluxos migratórios, políticas territoriais e regimes de visibilidade. Nesse sentido, o trabalho desloca a land art de uma prática de intervenção física para uma prática de cartografia crítica, na qual o território é compreendido como agente e não como suporte.

A noção de “contínuo da terra”, central para a compreensão da obra, aproxima-se de perspectivas contemporâneas da antropologia e da geografia crítica que concebem o território como campo de forças, e não como superfície estática. Autores como Tim Ingold, Doreen Massey e Ailton Krenak argumentam que a terra é um sistema vivo, relacional e processual. Ao alinhar-se a esse contínuo, o traço continental produz uma forma de inscrição que não busca impor uma geometria externa, mas coincidir com as dinâmicas próprias do território. Assim, a obra não se apresenta como objeto finalizado, mas como processo de observação contínua: desenhos alinhados ao contínuo da terra serão vistos e revistos, não por necessidade de correção, mas porque sua potência reside na capacidade de permanecer em diálogo com o território que atravessam.

Do ponto de vista historiográfico, a escala da obra — geográfica, simbólica e conceitual — permite situá-la entre as mais ambiciosas intervenções artísticas já realizadas. Contudo, sua relevância não deriva apenas da extensão física, mas da capacidade de reconfigurar a relação entre arte, território e política. Ao inscrever-se sobre Abya Yala, o trabalho opera simultaneamente como gesto estético, epistemológico e cosmopolítico, propondo uma crítica às cartografias coloniais e afirmando a terra como sujeito histórico e cosmológico.

A obra inaugura, portanto, uma categoria emergente no campo das artes visuais: a land art de escala continental, na qual o território é compreendido como entidade viva. Nesse contexto, o traço continental não apenas amplia os limites da land art, mas propõe uma nova métrica para a produção artística contemporânea: uma métrica que não se baseia na monumentalidade, mas na capacidade de produzir sentido na escala do próprio planeta.


Primeiras anotações

Trata-se de triangulações geométricas traçadas em escala sobre dezesseis localidades de Abya Yala, fazendo a ligação entre elas. Locais que se sincronizam através de um conjunto de signos históricos, culturais e místicos. Traçado que cria um roteiro ecocultural sul americano que denominei de Caminhos do Paralelo S15.




Caminhos do Paralelo S15. 2007. Projeto ampliando de impressão jato de tinta, aquarela e nanquim sobre papel. Chapada dos Guimarães, MT. 20X41 cm



Caminhos do Paralelo S15. 2007 - 2015. Giz pastel e nanquim sobre papel. Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 29,7X42 cm




Em 2003, mudei-me de Cuiabá para Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Centro-Oeste do Brasil. Morei nesse município por oito anos e, pesquisando as histórias e as paisagens da região, elaborei o projeto poético Caminhos do Paralelo S15.


Caminhos do Paralelo S15. 2008. Fotografia da instalação feita no Mirante do Centro da América do Sul. Chapada dos Guimarães, MT, 


O traçado foi inventado a partir de vivências e estudos que constituem esse projeto poético. Trata-se de um trabalho que busca valorizar patrimônios ambientais e culturais de Abya Yala (América do Sul).


Plano Piloto de Brasília e o Condor (geóglifo) da Planície de Nazca. Ambos no Paralelo S15. 


Lugares como Machu Picchu, Planície de Nazca, Chapada dos Guimarães, Pantanal, Chapada dos Veadeiros, Brasília, São Thomé das Letras, Caldas Novas, entre outros foram articulados enquanto campos de forças ecológicas e culturais.

A linha do Equador divide o planeta Terra em hemisfério sul e norte e todas as linhas imaginárias paralelas a ela são numeradas e indicam a posição Norte (N) ou Sul (S) no mapa do mundo, sendo usadas como coordenadas geográficas. O Paralelo Sul 15 corta o continente sul-americano do oceano Atlântico ao oceano Pacífico em sua região central. Em seu caminho, cruza com cidades cujo patrimônio ambiental e cultural é de grande valor para a humanidade. Dentre esses patrimônios estão, por exemplo: Porto Seguro, Brasília, Pirenópolis, Goiás Velho, Serra do Roncador, Chapada dos Guimarães, Cuiabá, Vila Bela da Santíssima Trindade, Lago Titicaca e a região de Ica, onde estão as linhas e geóglifos de Nazca.


Os três tetraedros do Paralelo 15 Sul.

Com base no levantamento dos patrimônios ambientais e culturais mais visitados do Paralelo S15, priorizei quatro regiões que passaram a figurar como tetraedros irregulares. O primeiro tetraedro que desenhei foi o do centro da América da Sul (Rota W55), o segundo e o terceiro foram, respectivamente, o da região de Brasília e o do Sul do Peru e, por último, o da região sul do estado de Minas Gerais.


Caminhos do Centro da América do Sul ou Rota W55 



Tetraedro de Fogo; Cuiabá (fogo), Nobres (água), Jaciara (terra) e Chapada dos Guimarães (ar).
2007 – 2015. Giz pastel e aquarela sobre papel. Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 29,7X42 cm

Caminho Brasil Central



Tetraedro de Terra; Brasília (terra), Goiás Velho (fogo), Chapada dos Veadeiros (ar) e Pirenópolis (Água)
2007 – 2015. Giz pastel sobre papel. Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 29,7X42 cm.

Caminho do Sul do Perú



Tetraedro de ar; Puno (água), Ica (terra), Cuzco (ar) e Arequipa (fogo).
2007 – 2020. Giz pastel e aquarela sobre papel. Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 29,7X42 cm. 

Caminhos do Sul de Minas Gerais



Tetraedro de água. São Thomé das Letras (Ar); Caldas Novas (Água); São Lourenço (Terra) e Poços de Caldas (Fogo)
2007 – 2020. Giz pastel e aquarela sobre papel. Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 29,7X42 cm. 

Pude observar que características dessas regiões as ligavam aos quatro elementos da natureza - terra, fogo, ar e água. Dentro das regiões, também utilizando o tetraedro, a lógica das cores e dos elementos se repete para as localidades. Essa ligação levou-me a pesquisar o pentagrama e suas cores:

Verde da região de terra - Brasília (poder, monumentos) e seu entorno; 

Vermelho da região de fogo - Cuiabá (luz, calor) e entorno; 

Amarelo da região de ar - Cuzco e entorno (altitude maior, montanhas);

Azul da região de água – Caldas Novas e entorno (águas quentes, que curam);

Branco das regiões contíguas, aludindo ao éter – localidades que constituem, mas também podem prolongar o campo de forças do grande tetraedro formado pelas linhas que ligam os quatro tetraedros menores compostos a partir da ideia dos quatro elementos. Cito alguns desses locais: Lagoa Santa de Goiás (região de terra); Pantanal mato-grossense (região de fogo); Salar de Uyuni as Lagoas Turquesas e os pequenos lagos de altitude (região de ar); cidade de Ouro Preto e Guapé em Minas Gerais (região de água) etc.

Os Caminhos do Paralelo S15 conduzem à criação de uma integração, um tetraedro de éter (etéreo), formado pelos quatro tetraedros irregulares.





Para mim, esses caminhos podem ser trilhados da forma que a imaginação e a criatividade das pessoas permitirem, contudo, cada uma das quatro regiões permitem o planejamento de caminhadas de até 200 km cada uma.





Água (Sul de Minas). 2008 - 2016. Giz pastel e nanquim sobre papel.
Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 42X42 cm



Ar (Sul do Perú). 2008 - 2016. Giz pastel e nanquim sobre papel. 
Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 42X42 cm.



Fogo (Centro da América do Sul), 2008 - 2016. Giz pastel e nanquim sobre papel.
Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 42X42 cm



Terra (Brasil Central). 2008 - 2016. Giz pastel e nanquim sobre papel.
Chapada dos Guimarães, MT - Fortaleza, CE. 42X42 cm 

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