Paralelos, Meridianos e Transversais

Paralelos, Meridianos e Transversais 
Imersão em [território] Olhos d´Água 
2015
 


(Em)trave. “Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.” Olhos, D`Água, Alexânia, 2015 Fotografia manipulada de objeto instalados em pequena trave de futebol. 


Para a residência em olhos D´Água fui com a ideia de desdobrar o trabalho InVersões que fiz em 2011, uma obra aberta composta por 108 imagens captadas nas superquadras de Brasília, onde utilizei inversão de foco e de negativo. Desfocadas e desdobradas no computador, essas imagens foram projetadas sobre pedra bruta de granito e algumas delas foram impressas em papel.



InVersões. 2011. Jato de tinta sobre papel. Brasília, DF. 27,9X42 cm



InVersões. 2012. Instalação. Cuiabá, MT. 108 imagens projetadas em pedra de granito. 


Para a residência, também pensei em captar as geometrias do patrimônio histórico do distrito, da mesma forma que em Brasília, mas com a diferença de que em Olhos d´Água, eu iria projetar as imagens e fotografá-las em diversas superfícies, constituindo “pinturas de luz” em diferentes texturas. 

Janelas. 2015. Fotografia. Olhos, D`Água, Alexânia, GO. 6 X de 29,7X42 cm 



InVersões Olhos D`Água. 2015. Projeção, fotografia, impressão jato de tinta sobre papel. Olhos D`Água, Alexânia, GO. 42X29,7 cm


Fizemos várias caminhadas, algumas sem destino certo, à deriva, outras guiadas; algumas em grupo, outras sozinho. Experimentamos diferentes modos de caminhar, o que relacionei ao texto O caminhar como experiência estética e desdobramento virtual, de Sandra Rey (2010). No caminho, várias coisas me saltaram aos olhos. Quinze dias pareciam-nos pouco tempo para dar conta das múltiplas possibilidades que surgiam, era preciso ação, dar corpos às ideias.



Troca Tempo. 2015. Fotografia. Olhos D`Água, Alexânia, GO. 59,4X42 cm 


Olhos d´Água é conhecida pela Feira do Troca, evento de mais de 43 anos que acontece duas vezes por ano e conta com uma programação cultural, onde acontecem trocas ou aquisições de objetos de arte, produtos feitos à mão, antiguidades etc. Percebi que a filosofia da troca estava presente na região e isso me chamou a atenção. 

Na primeira caminhada em grupo que fizemos, eu vi alguns objetos antigos e mais à noite tive a oportunidade de conhecer o Bar Museu da dona Cecília Machado. A primeira foto que fiz foi do letreiro Bar Museu e logo depois fomos para um evento chamado Pouso de Folia. Conheci o interior do Bar Museu no dia seguinte e estava sem ninguém, percebi que ali se comercializavam cachaças com as mais variadas ervas, frutos etc., também havia histórias escritas nas paredes, objetos pendurados, entre outras coisas. Tirei uma foto e continuei a pesquisa com as fachadas dos prédios históricos. 



Bar Museu. 2015. Fotografia. Olhos D`Água, Alexânia, GO. 59,4X42 cm 


Por estímulo da artista Iris Helena, voltei ao Bar Museu para que Dona Cecília me benzesse. Foi nesse dia que a conheci e que começamos a trocar coisas. Ao final da benção, perguntei se ela precisava de mais alguma coisa, além de um pacote de velas que eu havia levado. A princípio, ela disse que não, então, puxei conversa sobre um relógio que estava em frente das garrafas de pinga, perguntei se eu podia fotografá-lo, sobre como tratar alguns males de saúde. Ervas, frutas, álcool e cura, isso tudo me chamava muito a atenção. O artista Dalton Paula, também residente, estava trabalhando com ervas. Muitas polêmicas orbitam o universo do herbalismo e do álcool, era o momento de pensar sobre elas. 



Troca Copo. 2015. Objeto (Porta copos de madeira e nível). Olhos D`Água, Alexânia, GO. 30X80X15 cm 


Ao final da conversa, dona Cecília pediu-me para fazer um pequeno cartaz digitado no computador, para que pudesse por ao lado do relógio. Explicou-me que o relógio tinha sido feito por um “deficiente mental” e fez questão de frisar que possuía ao fundo uma imagem de Paris, algarismos romanos e um código na parte metálica. Acabei comprando o relógio e fiz algumas fotos dele ao lado do Bar Museu. Fotografei também uma escultura de ferro - um lavrador - que estava amarrada ao lado do balcão. Caminhei com o relógio pela cidade fazendo fotos aqui e ali, tanto que alguns moradores me descreveram como o “rapaz que anda com um relógio por aí”.



Tempo de janela. 2015. Fotografia. Olhos D`Água, Alexânia, GO, 59,4X42 cm 



Lavrador de Ferro. 2015. Fotografia. Olhos D`Água, Alexânia, GO, 59,4X42 cm 


Dona Cecília me mostrou documentos sobre a linha imaginária aludida no Tratado de Tordesilhas que, segundo seus estudos, passa pelo distrito de Olhos d´Água e percebi como isso produzia sentido para ela. Para mim, foi inevitável fazer a associação da linha de Tordesilhas, um meridiano (possivelmente o Meridiano W48), com o Paralelo S15 e o meridiano W55. 

Fiz um trabalho em 2007, que considero um projeto poético, intitulado Caminhos do Paralelos S15. Consiste em um traçado geométrico feito em escala sobre o mapa da América do Sul. Utilizando-me de linhas que remetem a tetraedros irregulares e ao pentagrama, conecto regiões de Mato Grosso (centro da América do Sul, W55); do Distrito Federal e Goiás (Brasil Central); do Sul de Minas Gerais e do Sul do Peru. Falei do meu projeto artístico para dona Cecília e da possibilidade de fazer o cruzamento dos Caminhos do Paralelo S15 com a linha de Tordesilhas. 

Dessas sincronicidades, surgiu a ideia de fazer uma exposição no Bar Museu. A proposta foi bem aceita pelos residentes e professores convidados, dona do bar e se articulou com conceitos e pesquisas sobre colonialidade da arte (SANCHEZ; BRANDÃO, 2014) realizadas durante o mestrado na UFMT. O nome da exposição artística Paralelos e Meridianos foi sugerido pelo fotógrafo Peninha, que fez um vídeo da ação com o mesmo título. Lembrei-me também da artista Raquel Nava Rodrigues, que em Brasília (2012), entrevistou-me sobre o trabalho Caminhos do Paralelo S15, articulando-o à sua dissertação de mestrado. Em referência aos Caminhos do Paralelo S15, Raquel publicou na dissertação uma foto onde apresenta duas linhas tatuadas em seus braços, sendo que as disposições das linhas na foto ficaram uma na horizontal (braço) e outra na vertical (antebraço).



Criei então uma metáfora/personagem a “dona” do Museu, cuja personalidade busco associar aos “donos/as” do mundo da arte que hipervalorizam verticalidades. Assim, a linha meridiana surge como verdade cartesiana que, no globo, vai de baixo para cima ou de cima para baixo, de polo a polo, como uma corda imaginária que ligaria o Bar Museu ao Moma. As verticalidades remetem às hierarquias que amarram o mundo da arte, que muitas vezes estão para além da qualidade dos trabalhos, da criatividade, das linguagens etc. São hierarquias que se estabelecem também através de classificações baseadas em gênero, cor de pele, no local onde o artista vive e produz, na classe social, na escolaridade, na profissão etc., e que acabam sendo imperativas nas questões de autonomia e legitimação do/a artista. Por outro lado, criei também a metáfora/personagem da artista “paralela”, pois a polissemia dessa palavra nos leva para além das questões geográficas. Semelhante, simultâneo, que confronta são alguns dos sinônimos de paralelo e figuram entre seus antônimos, os termos: diferente, outro, dissemelhante. A percepção da hiperverticalidade amarrada à colonialidade faz com que a “artista paralela” crie e instrumentalize mecanismos de respostas e resistência que irão auxiliá-la a equilibrar-se em seus caminhos ora horizontais, ora verticais. Assim, ao acolher a artista “paralela”, a dona do Museu se abre para horizontalidades, para heterarquias (KONTOPOULOS, 1993) que consideram de forma crítica uma ecologia entre horizontalidades e verticalidades, entre centros e periferias, criando espaço para a interculturalidade, para trocas, para o outro e seu inverso. 

Os objetos encontrados pela cidade se articulavam perfeitamente com o Bar Museu, a exposição seria composta também com fotografias e com o traçado dos Caminhos do Paralelo S15 integrando a linha imaginária de Tordesilhas. 

Nesse processo de trocas e compartilhamentos, experimentei pingas, lanches, frutas e café, também levei comigo pequenas garrafas de pinga, além de uma espiga de milho e canecas que se tornaram parte de meu trabalho. Preparei alguns convites e cartazes e distribuí pela cidade. Não posso deixar de registrar a hostilidade de alguns moradores com relação ao Bar Museu e à Dona Cecília. Pior do que as hostilidades originadas da linha que divide pessoas de língua portuguesa e hispânica são as geradas pelas divisões entre mulheres e homens, negras/os e brancas/os, idosos, crianças e adultos, entre muitas outras.



Troca Milho Olhos D`Água, Alexânia, 2015 Espiga de milho e desenho nanquim sobre papel. 42X29,7X42 cm 



Passagem Olhos D`Água, Alexânia, 2015 Fotografia de instalação com trave e roca. 42X59,4 cm, 



Sem Título Olhos D`Água, Alexânia, 2015 Objetos (puxadores, vidro, cadeira, porta lenços de papel) 70X66X92 cm


Referências bibliográficas: 

BERTRAN, Paulo. História da Terra e do Homem no Planalto Central. 1ª edição. Brasília. Solo Editora, 1994. 

QUIJANO, Aníbal. "Raza", "Etnia", "Nación", Cuestiones Abiertas. En Roland Forgues, ed. José Carlos Mariategui y Europa. La otra cara del descubrimiento. Lima : Ed. Amauta 1992

KONTOPOULOS, Kyriankos. The Logic of Social Structures. Cambridge: Cambridge: Cambridge University Press, 1993. 

RODRIGUES, Raque Nava. A Cochonilha Vale Ouro: Narrativas Cromáticas do Carmim. Dissertação (mestrado) - Universidade de Brasília, Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais, Programa de Pós-Graduação em Arte, 2012. 

SANCHEZ, Daniel Pellegrim; BRANDÃO, Ludmila. Colonialidade da arte. Humanidades em Contexto, Saberes e Interpretações, UFMT, 2014. Disponível em: < http://eventosacademicos.ufmt.br/index.php/seminarioichs/seminarioichs2014/paper/viewFile/1620/373 

REY, Sandra. Caminhar: experiência estética, desdobramento digital. Revista Porto Arte. Porto Alegre, v. 17, nº 29, novembro/2010. 

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