Coisas que vi e InVersões

Ludmila Brandão
Doutorado em Comunicação e Semiótica, PUC/SP, 1999
Pós-doutorado em Crítica da Cultura pela Unversité d´Ottawa/Canada, 2005

Coisas que vi e InVersões de Daniel Pellegrim Sanchez: o trabalho dos afetos, 2012.
Catálogo da Mostra


Para pensar os trabalhos que selecionei de Daniel Pellegrim, a Estética (ou o pensamento sobre a arte) que me convém é, sem dúvida alguma, aquela formulada pelos franceses Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari. Distanciando-se das estéticas idealistas que privilegiam concepções de beleza, harmonia, sublime, etc., ou do campo da significação que, conforme a ácida crítica de Zulmira Tavares, faz do objeto apenas um pretexto para o jogo das interpretações, os franceses propõem uma estética baseada na sofisticada formulação da “sensação”, que não se confunde jamais com percepções e sentimentos. Não são os olhos (ou apenas os olhos), nem o coração (como órgão metafórico do sentimento), nem tão pouco o pensamento (ou apenas o pensamento) que gere o encontro com um objeto/situação de natureza artística. O corpo, antes de qualquer pensamento, ou qualquer sobrecodificação cultural colada à imagem, é a via direta de encontro com a arte (ao menos essa arte que pode ser compreendida por essa estética), sem mediações.
Daí que para os franceses a obra de arte define-se, nada mais, nada menos, como um “ser de sensação”.
As obras de Daniel Pellegrim exigem essa visada materialista. Suas obras são seres de sensação. E como tais, são objetos (seres) que existem por si mesmo, que “param em pé” (se sustentam por si mesmo), e carregam a potência de atuarem sensivelmente, ou seja, de afetarem nossos corpos, de produzirem sensações as quais somos incapazes de traduzir. Por isso, o que trago aqui não são interpretações, são efetivamente fabulações sobre os afetos e perceptos cuja presença pressinto, a partir do meu corpo, menos que do pensamento.
Em Coisas que vi aquilo que o Ocidente se esforçou por separar, dicotomizar, antagonizar – homem e natureza – são confundidos, devolvidos a um mesmo plano de imanência, seres de uma mesma e curiosa paisagem. A escala que não é a ocidental, é mais uma anti-escala que equipara espacialmente o cerrado domesticado em suas curvas de nível às curvas (de nível também) de uma digital humana. Confundem-se também as perspectivas frontais e aérea dos objetos fotografados, cuja combinação (inversão, seqüenciamento, duplicação) constitui uma imagem final que nos propõe, ao modo de Alice no País das Maravilhas, um paradoxo espacial e genético.



Finalmente, o trabalho InVersões, obra de meu especial apreço, é composta por um conjunto de 108 imagens fotográficas de paisagens urbanas que passaram por variados processos de manipulação (desfocamento, inversão para o negativo, tratamento digital, etc.) e que são projetadas em loop em um pequeno bloco de granito em estado bruto, suportado por uma coluna de vidro.
O que nos impacta, afeta especialmente, é esse encontro transtemporal do passado mais longínquo com o presente cibernético que se evidencia nessa combinação entre granito, vidro, imagens digitais estilizadas projetadas sobre pedra. Inscrições rupestres contemporâneas. Os afetos das matérias e das imagens reorganizam o espaço-tempo de nossas vidas, de tal modo que parecem nos colocar em contato imediato (não saberia dizer em que grau), com aqueles que fizeram o trabalho pesado da invenção da espécie, quiçá permitindo-nos um devir ancestral jamais experimentado.



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